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Operação apura esquema de propina e irregularidades em imóveis; 5 presos
28 de Outubro de 2026 as 10h 28min
Delegada detalhou esquema em coletiva de imprensa – Foto: José Roberto Gonçalves
O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), por meio da unidade descentralizada de Sinop, deflagrou nesta quarta-feira (28) a segunda fase da Operação Mãos à Obra, que investiga um suposto esquema de corrupção envolvendo agentes públicos e empresários ligados a procedimentos administrativos de obras e empreendimentos imobiliários no município. A investigação apura possíveis pagamentos de propina para acelerar processos, aprovar projetos, conceder licenças e certificados e permitir a conclusão de construções com irregularidades.
Por determinação judicial, foram cumpridos cinco mandados de prisão preventiva, além de mandados de busca e apreensão relacionados a 17 alvos. A reportagem do Diário do Estado MT levantou os nomes de alguns dos presos: 3 servidores públicos (Valdinei Monteiro da Silva, Fernando Dante Morari e Júlio Henrique Verdu Garcia) e 2 empresários do ramo da construção civil foram presos.
A Justiça também determinou o afastamento cautelar de seis agentes públicos de suas funções e a suspensão das atividades econômicas e financeiras de uma empresa investigada.
As medidas patrimoniais incluem o bloqueio de R$ 80 milhões em bens e valores relacionados a um grupo de investigados e a uma pessoa jurídica. Também foi autorizado o sequestro de ativos financeiros de até R$ 3 milhões para cada um dos demais investigados, além do sequestro de imóveis vinculados a um dos alvos. As medidas buscam preservar recursos potencialmente relacionados aos crimes investigados e garantir eventual ressarcimento aos cofres públicos.
106 IMÓVEIS COM IRREGULARIDADES
Durante coletiva de imprensa, a promotora de Justiça Roberta Cheregatti Sanches explicou que a investigação foi ampliada após o recebimento, em 2026, de informações sobre servidores que supostamente exigiam dinheiro para acelerar procedimentos de autorização de obras e emissão de documentos, como o habite-se.
“Nós recebemos, nesse ano de 2026, algumas informações relacionadas a alguns servidores públicos da Prodeurbs que estavam se valendo do cargo e exigindo valores em dinheiro para fins de acelerar o processo de tramitação de autorização de obra e habite-se na secretaria de Urbanismo”, declarou a promotora.
Os novos elementos foram confrontados com informações de um inquérito policial instaurado em 2019, que já apontava suspeitas envolvendo servidores públicos ligados à área de desenvolvimento urbano. Segundo Roberta, a análise de movimentações financeiras e de bens declarados por servidores contribuiu para aprofundar as apurações e ampliar o número de investigados.
“É claro que nós sabíamos que essa análise não seria eficiente para descortinar todos os autores do crime, porque bem sabemos que, junto ao crime de corrupção, há o crime de lavagem de dinheiro”, afirmou.
Conforme a promotora, a primeira fase da operação tinha dois alvos, enquanto a investigação atual chegou a 18 pessoas ou alvos no total. “Lá naquela primeira fase nós tivemos dois alvos e nessa nós tivemos 18 alvos no total”, destacou.
Um dos principais focos é uma construtora de Sinop cujos proprietários são um casal. De acordo com as apurações preliminares, a empresa teria mantido um esquema com servidores públicos para viabilizar a conclusão de construções, principalmente kitnets, que apresentariam irregularidades urbanísticas. A promotora informou que foram identificados, até o momento, 106 imóveis com irregularidades, distribuídos por diferentes bairros da cidade e que estariam em funcionamento. “Há 106 imóveis aqui em Sinop em diversos bairros que são irregulares e estão aí em pleno funcionamento”, afirmou Roberta.
As investigações também apontam que a empresa, por meio de seus proprietários, teria pago aproximadamente R$ 2,5 milhões em propinas. Conforme a promotora, um dos servidores investigados seria responsável por intermediar as tratativas e distribuir os valores a outros funcionários, inclusive aqueles ligados à fiscalização de obras. “Essa empresa, através dos seus proprietários, pagou de propina, o que foi apurado até o momento, R$ 2,5 milhões”, declarou.
A suspeita é de que os pagamentos buscavam evitar inspeções e favorecer a tramitação dos processos administrativos. “Pelo que nós apuramos, era um servidor que ficava responsável de fazer as tratativas e posteriormente ele dividia os valores a outros servidores responsáveis pela fiscalização de obras para que eles não fossem até a obra para não fazer a fiscalização”, explicou a promotora.
PREJUÍZOS À POPULAÇÃO
O delegado Getúlio Daniel destacou que as suspeitas vão além de possíveis prejuízos financeiros à administração pública. Segundo ele, a aprovação ou a conclusão de construções fora das normas urbanísticas também pode trazer consequências à população, especialmente em relação à segurança e às condições de moradia.
O delegado afirmou que os levantamentos indicaram uma possível incorporação dessas práticas à rotina de parte do setor público investigado. Ele também mencionou manifestações de moradores nas redes sociais após a primeira fase da operação, que, na avaliação dele, ajudaram a dimensionar como o esquema era percebido pela população.
“Ela (esquema) impregnou ali o órgão público de forma tão grave que foi percebido que os servidores, ou a população, ou as pessoas que necessitavam dos serviços públicos ali, estavam acostumados ao tratamento ilícito recebido”, afirmou.
Getúlio ressaltou ainda que os recursos supostamente desviados poderiam ser destinados a melhorias na infraestrutura urbana. Entre os exemplos citados estão investimentos em escolas, creches, pavimentação, saneamento básico e medidas para reduzir problemas de alagamentos, que afetam Sinop principalmente durante o período chuvoso.
“Esse dinheiro que deveria estar entrando ali para ser investido em prol da população, aquelas pessoas ali que talvez tenham dificuldade para encontrar uma creche para o seu filho, uma escola, aqui em Sinop, principalmente na época da chuva, a gente sofre muito com diversos alagamentos na cidade, poderia ser esse dinheiro investido em estrutura, em pavimentação, em saneamento básico, estava ali nas mãos dos servidores públicos corruptos”, declarou.
Além das prisões e dos afastamentos, durante o cumprimento das ordens judiciais foram apreendidos seis veículos de luxo, dinheiro em espécie e outros bens de alto valor vinculados a empresários investigados. Também foi determinado o sequestro de três imóveis. A quantia em dinheiro apreendida ainda estava sendo contabilizada no momento da entrevista coletiva, e os materiais recolhidos serão analisados para verificar possíveis relações com os fatos investigados e identificar outros envolvidos.
A promotora destacou que a atuação do Ministério Público também busca impedir que eventuais recursos obtidos ilegalmente sejam ocultados ou dissipados. “Fazer justiça não é só prender, porque logo também a pessoa é solta, mas também reter esses bens, que em verdade foi o que o motivou a praticar o crime de corrupção”, declarou.
Os fatos apurados podem gerar consequências nas esferas criminal, administrativa e civil, incluindo procedimentos relacionados à improbidade administrativa, conforme a análise dos órgãos competentes.
Como há investigados presos, o prazo inicial para a conclusão do inquérito é de 30 dias, com possibilidade de prorrogação por mais 30 dias.
PREFEITURA NÃO É ALVO
Em nota divulgada à imprensa, a Prefeitura de Sinop afirmou que o Município e a Secretaria de Planejamento Urbano e Habitação não são alvos da investigação do Gaeco. Segundo a Administração, a apuração se concentra em condutas atribuídas individualmente aos servidores envolvidos, e as diligências realizadas na secretaria são desdobramentos da operação deflagrada em 28 de julho.
A Prefeitura informou ainda que as buscas se restringiram ao acesso a documentos e computadores relacionados aos servidores investigados e que os funcionários envolvidos serão afastados de suas funções durante o período das investigações.
Por fim, a Administração reafirmou o compromisso com a transparência e o cumprimento da lei, além de informar que continuará colaborando com os órgãos responsáveis, prestando esclarecimentos e disponibilizando as informações solicitadas.
O Gaeco ressalta que as investigações continuam em andamento e que as medidas cautelares determinadas pela Justiça não representam comprovação definitiva de responsabilidade criminal. Os investigados têm assegurados os direitos à ampla defesa, ao contraditório e à presunção de inocência.
Fonte: JOSÉ ROBERTO GONÇALVES
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